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Antes de Escrever O Jogo da Vida, Florence Já Ensinava a Jogar

Foto do escritor: João Victor Soul
João Victor Soul
há 6 dias
7 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Imagem de Florence Scovel Shinn que compõe a matéria, restaurada e colorizada.
Imagem de Florence Scovel Shinn que compõe a matéria, restaurada e colorizada.

Quando a vida parece uma longa procura, certas palavras oferecem um pouco de descanso. Florence Scovel Shinn tinha uma maneira particular de fazer isso: convidava seus ouvintes a imaginar que o trabalho desejado também precisava de seus talentos e que o amor procurado também podia encontrar o caminho até eles. Uma pequena mudança de perspectiva abria espaço para respirar e tentar outra vez.


Em 1916, anos antes da publicação de O Jogo da Vida e Como Jogá-lo, Florence recebeu em seu apartamento nova-iorquino a jornalista Nixola Greeley-Smith. Ainda conhecida por seu trabalho como ilustradora, ela começava a levar seus ensinamentos para as palestras, inclusive desenhando seus argumentos no quadro-negro. A artista e a professora conviviam naquela conversa.


Nixola fez perguntas sobre emprego, dinheiro, amor, ciúme e as complicações dos relacionamentos. Florence respondeu com histórias, convicções e aquela linguagem direta que seus leitores reconheceriam mais tarde nos livros. Ao longo do encontro, chegou até Adão e Eva e apresentou sua interpretação sobre a perda do Paraíso.


A seguir, você poderá acompanhar a entrevista completa em português. O texto preserva a sequência da reportagem e as opiniões registradas naquele momento histórico. A voz que conduz a conversa é a de Nixola; as respostas entre aspas são as falas atribuídas a Florence pelo jornal.


Se você pensar nas correntes do amor e do sucesso, criará essas qualidades


É o que declara Florence Scovel Shinn, famosa ilustradora que se tornou praticante do Novo Pensamento e que reforça suas ideias com um desenho original.



Detalhe da ilustração criada por Florence para a reportagem. Em destaque: amor, sucesso, confiança; em oposição a ressentimento, fracasso, medo. 
Detalhe da ilustração criada por Florence para a reportagem. Em destaque: amor, sucesso, confiança; em oposição a ressentimento, fracasso, medo. 

É o estado de espírito que faz de uma pessoa um sucesso e de outra um fracasso, segundo a doutrina da sra. Shinn. Pense em amor e você o receberá; acredite, e sua fé será justificada. Por Nixola Greeley-Smith.


O amor que você procura está procurando por você.


O emprego que você deseja está à sua procura.


A traição que você teme está sendo criada pelo seu próprio medo dela.


Se você sente ciúmes de seu marido, seu ciúme logo acabará por se justificar.


Se você o ama e confia nele, ele se tornará merecedor de seu amor e de sua confiança.


Para pregar esse evangelho, a sra. Florence Scovel Shinn, famosa entre as ilustradoras, criadora das imagens de Mrs. Wiggs of the Cabbage Patch, Lovey Mary e outras heroínas da literatura otimista, deu as costas à arte e se tornou uma praticante do “Novo Pensamento”. Como me explicou ontem, não se trata de algo novo, mas simplesmente da aplicação prática da sabedoria de todas as épocas.


“Nunca mais farei ilustrações que apenas ilustrem”, disse-me a sra. Shinn ontem, em seu apartamento no número 129 da West 40th Street. “No último domingo, dei minha primeira palestra sobre o ‘Novo Pensamento’ e ilustrei meus argumentos no quadro-negro. Contei a história de dois meninos que partiram de Sharpstown, Nova Jersey, cada um conduzindo uma carroça carregada de feno. Um deles permitiu que seus pensamentos fluíssem na corrente elevada do amor, do sucesso e da confiança. Esse menino acabou indo para a Filadélfia e se tornou seu maior comerciante: John Wanamaker.”


“O outro menino, vivendo exatamente no mesmo ambiente e dispondo das mesmas oportunidades escassas, pensava segundo a corrente do medo, do fracasso e do ressentimento. Todos os dias dizia para si: ‘Todas as oportunidades já foram agarradas. Esta não é uma época em que um menino pobre tenha alguma chance. Serei sempre esmagado por aqueles que alcançarem mais sucesso do que eu.’”


“Os medos desse menino criaram a condição que o atormentava. Hoje ele é um velho agricultor empobrecido, desdentado e com icterícia. No entanto, tanto ele quanto John Wanamaker tiveram o mesmo ponto de partida. Apenas um deles pensava em sucesso; o outro, em fracasso.”


Está desanimado? Não precisa. É uma tolice.


“Neste verão, estou substituindo o sr. Walter Weston. Faço pregações ou demonstrações todos os domingos, no número 301 da Madison Avenue. Demonstro o sucesso. Quando um homem ou uma mulher me procura desanimado, pobre e sem emprego, ensino a acreditar que o trabalho para o qual essa pessoa está preparada também está à procura dela. Se não conseguir a vaga à qual se candidatou, é porque existe outro emprego, melhor, procurando por ela.”


“Quando alguém se apresenta a um empregador com esse sentimento, transmite imediatamente uma impressão de equilíbrio, autoconfiança e segurança. Essas são as qualidades do sucesso, e o empregador as reconhece.”


“A pessoa que pensa construtivamente, que é uma otimista científica, é uma funcionária extraordinária. Todos os empregadores estão à procura dela.”


“Às vezes, sabe, vêm até mim pessoas que acreditam ter direito a salários maiores do que recebem. Dizem-me que determinado homem está entre elas e esse aumento. ‘Ele poderia me concedê-lo, mas não quer’, afirmam. Então sugiro: ‘Experimente abandonar todo ressentimento contra ele e enviar-lhe amor.’ Quando fazem isso, o empregador muda de atitude e aumenta seus salários. ‘Esqueça a personalidade desagradável, isto é, a parte material’, digo. ‘Reverencie a divindade que existe nele. Ao fazer isso, você já o conquistou.’”


Tão eficaz nos negócios quanto no amor


Apenas para pôr à prova, de maneira prática, o “Novo Pensamento” construtivo pregado pela sra. Shinn, saudei a divindade de uma pessoa ausente e então perguntei:


“Mas suponhamos que eu não seja uma pessoa à procura de emprego. Suponhamos que eu seja uma mulher que ama muito o marido e deseja conservá-lo. A senhora pode me dizer como?”


“Certamente”, respondeu a sra. Shinn. “Pense em amor, pense em confiança, e você criará essas qualidades nele. O grande amor das mulheres, infelizmente, costuma trazer consigo um grande medo, o medo da perda. O terrível é que esse medo produz as próprias consequências que se teme. No fim, o ciúme invariavelmente acaba por se justificar.”


“Conheço uma jovem muito apaixonada por um homem. Recentemente, ela passou uma temporada à beira-mar. Quando ele foi visitá-la, num domingo, seu ciúme irracional o levou a dizer: ‘Imagino que você esteja vendo muitos outros homens.’ Até aquele momento ela não tinha visto homem algum, mas quase imediatamente outros homens começaram a rodeá-la.”


“‘Imagino que outros homens estejam levando você para passear de automóvel’, comentou ele na visita seguinte. Ela não conhecia nenhum homem que tivesse automóvel. Mas, naquela mesma semana, apareceu um, que começou a cortejá-la. O ciúme daquele homem convocou justamente as coisas que ele temia, dando vida aos fantasmas de sua própria mente.”


“Da mesma forma, as esposas que temem a infidelidade dos maridos acabam por criá-la. À esposa que teme ser traída, digo: ‘Entre em harmonia com o universo. Envie apenas amor a seu marido e também à outra mulher que você teme. Fazendo isso, destruirá qualquer mal que esteja rondando sua vida.’”


Uma cura segura para uma paixão questionável


“Suponhamos, então”, prossegui, “uma esposa que não esteja apaixonada pelo marido. Já resolvemos o caso da mulher amorosa e ciumenta. O que a senhora tem a dizer àquela que chegou à segunda primavera e que, desafiando todas as regras de decoro, conveniência e tudo o mais, floresce por cima da cerca em direção ao vizinho? O que diria à atormentada vítima de uma paixão repentina?”


“Eu lhe diria para examinar o próprio coração e certificar-se de que esse novo sentimento não foi criado nela pelo ciúme do marido. Muitas das chamadas paixões são implantadas em nós pelo ciúme”, acrescentou a sra. Shinn.


“Digo a toda e qualquer mulher que sofre por amor, correspondido ou não, permitido ou proibido: ‘O amor que você procura está procurando por você. Se for o amor certo, ele a encontrará.’ Sabe”, observou a esguia e espiritualizada sra. Shinn, “já vi mulheres mudarem o objeto de sua afeição em vinte e quatro horas com esse tratamento.”


“Não podemos conquistar nossa felicidade à custa de outra pessoa”, acrescentou a sra. Shinn. “Shakespeare disse: ‘Aquilo que se obtém por meios ilícitos nunca termina bem.’ A mulher que tira um homem de outra jamais encontrará alegria com ele. E sabe de uma coisa curiosa? As mulheres acabam sempre, mais cedo ou mais tarde, fazendo aquilo que censuram em outras mulheres.”


Quando se colhe o que se planta


“Se neste ano eu disser: ‘Que criatura terrível é a sra. Jones! Ela fez o marido divorciar-se da primeira esposa para se casar com ela’, no ano seguinte poderei me sentir impelida a cometer exatamente a mesma falta que condenei nela. E alguma outra mulher estará dizendo precisamente a mesma coisa a meu respeito. O mal gera o mal. Se queremos que pensem bem de nós, precisamos pensar bem dos outros.”


“Adão e Eva perderam o Paraíso porque admitiram a existência do bem e do mal. No Jardim do Éden havia apenas o bem. Por isso digo: ‘Pense em amor e você receberá amor. Acredite, e sua fé será justificada. Duvidar fará com que sua dúvida adquira forma e substância.’”


Querem saber? Estou inclinada a aceitar a teoria da sra. Shinn. Enquanto conversava comigo, ela desenhou uma ilustração que mostrava o que acontece às pessoas que pensam segundo a corrente do sucesso, do amor e da confiança, e o triste destino reservado àquelas que pensam em fracasso.


E, enquanto ela desenhava, pensei e torci para que terminasse a ilustração às seis e meia, a tempo de eu pegar meu trem para os subúrbios.


E eis que, às seis e meia, o desenho estava pronto.


A conversa pode continuar na sua casa


Talvez alguma resposta de Florence tenha encontrado uma pergunta que você vinha carregando. Sobre o amor, sobre uma oportunidade que parece distante ou sobre a coragem de se apresentar à vida com mais confiança.


Nos livros, essas conversas continuam. Reuni suas cinco obras em A Coleção Definitiva de Florence Scovel Shinn, acompanhadas de fotografias históricas e uma biografia da autora. Um volume para conhecer seus ensinamentos, sublinhar uma passagem e voltar a ela quando uma nova leitura fizer sentido.


A jornalista precisou correr para pegar o trem. Você pode ficar um pouco mais com

Florence.





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